Sobre o Estado Suicidário

BEM-VINDO AO ESTADO SUICIDÁRIO 

por Vladimir Safatle (Publicado originalmente pela n-1 Edições)

Você é parte de um experimento. Talvez sem perceber, mas você é parte de um experimento. O destino do seu corpo, sua morte são partes de um experimento de tecnologia social, de nova forma de gestão. Nada do que está acontecendo nesse país que se confunde com nossa história é fruto de improviso ou de voluntarismo dos agentes de comando. Até porque, ninguém nunca entendeu processos históricos procurando esclarecer a intencionalidade dos agentes. Saber o que os agentes acham que estão a fazer é realmente o que menos importa. Como já se disse mais de uma vez, normalmente eles o fazem sem saber.

Esse experimento do qual você faz parte, do qual te colocaram à força tem nome. Trata-se da implementação de um “Estado suicidário” como disse uma vez Paul Virilio. Ou seja, o Brasil mostrou definitivamente como é o palco da tentativa de implementação de um Estado suicidário. Um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo. Agora, é sua face a mais cruel, sua fase terminal.

Engana-se quem acredita que isto é apenas a já tradicional figura do necroestado nacional. Caminhamos para além da temática necropolítica do Estado como gestor da morte e do desaparecimento. Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe, ele é o cultivador de sua própria explosão. Para ser mais preciso, ele é a mistura da administração da morte de setores de sua própria população e do flerte contínuo e arriscado com sua própria destruição. O fim da Nova República terminará em um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos.

Um Estado dessa natureza só apareceu uma vez na história recente. Ele se materializou de forma exemplar em um telegrama. Um telegrama que tinha número: Telegrama 71. Foi com ele que, em 1945, Adolf Hitler proclamou o destino de uma guerra então perdida. Ele dizia: “Se a guerra está perdida, que a nação pereça”. Com ele, Hitler exigia que o próprio exército alemão destruísse o que restava de infraestrutura na combalida nação que via a guerra perdida. Como se esse fosse o verdadeiro objetivo final: que a nação perecesse pelas suas próprias mãos, pelas mãos do que ela mesma desencadeou. Esta era a maneira nazista de dar resposta a uma raiva secular contra o próprio Estado e contra tudo o que ele até então havia representado. Celebrando sua destruição e a nossa. Há várias formas de destruir o Estado e uma delas, a forma contrarrevolucionária, é acelerando em direção a sua própria catástrofe, mesmo que ela custe nossas vidas. Hannah Arendt falava do fato espantoso de que aqueles que aderiam ao fascismo não vacilavam mesmo quando eles próprios se tornavam vítimas, mesmo quando o monstro começava a devorar seus próprios filhos.

O espanto, no entanto, não deveria estar lá. Como dizia Freud: “mesmo a auto-destruição da pessoa não pode ser feita sem satisfação libidinal”. Na verdade, esse é o verdadeiro experimento, um experimento de economia libidinal. O Estado suicidário consegue fazer da revolta contra o Estado injusto, contra as autoridades que nos excluíram, o ritual de liquidação de si em nome da crença na vontade soberana e na preservação de uma liderança que deve encenar seu ritual de onipotência mesmo quando já está claro como o sol sua impotência miserável. Se o fascismo sempre foi uma contrarrevolução preventiva, não esqueçamos que sempre soube transformar a festa da revolução em um ritual inexorável de auto-imolação sacrificial. Fazer O desejo de transformação e diferença conjugar a gramática do sacrifício da auto-destruição: essa sempre foi a equação libidinal que funda o Estado suicidário.

O fascismo brasileiro e seu nome próprio, Bolsonaro, encontraram enfim uma catástrofe para chamar de sua. Ela veio sob a forma de urna pandemia que exigiria da vontade soberana e sua paranoia social compulsivamente repetida que ela fosse submetida à ação coletiva e à solidariedade genérica tendo em vista a emergência de um corpo social que não deixasse ninguém na estrada em direção ao Hades. Diante da submissão a uma exigência de autopreservação que retira da paranoia seu teatro, seus inimigos, suas perseguições e seus delírios de grandeza a escolha foi, no entanto, pelo flerte contínuo com a morte generalizada. Se ainda precisássemos de uma prova de que estamos a lidar com uma lógica fascista de governo, esta seria a prova definitiva. Não se trata de um Estado autoritário clássico que usa da violência para destruir inimigos. Trata se de um Estado suicidário de tipo fascista que só encontra sua força quando testa sua vontade diante do fim.

É claro que tal Estado se funda nessa mistura tão nossa de capitalismo e escravidão, de publicidade de coworking, de rosto jovem de desenvolvimento sustentável e indiferença assassina com a morte reduzida a efeito colateral do bom funcionamento necessário da economia. Alguns acham que estão a ouvir empresários, donos de restaurantes e publicitários quando porcos travestidos de arautos da racionalidade econômica vêm falar que pior que o medo da pandemia deve ser o medo do desemprego.

Na verdade, eles estão diante de senhores de escravos que aprenderam a falar business english. A lógica é a mesma, só que agora aplicada à toda a população. O engenho não pode parar. Se para tanto alguns escravos morrerem, bem, ninguém vai realmente criar um drama por causa disso, não é mesmo? E o que afinal significa 5.000, 10.000 mortes se estamos falando em “garantir empregos”, ou seja, em garantir que todos continuarão sendo massacrados e espoliados em ações sem sentido e sem fim enquanto trabalham nas condições as mais miseráveis e precárias possíveis?

A história do Brasil é o uso contínuo desta lógica. A novidade é que agora ela é aplicada a toda a população. Até bem pouco tempo, o país dividia seus sujeitos entre “pessoas” e “coisas”, ou seja, entre aqueles que seriam tratados como pessoas, cuja morte provocaria luto, narrativa, comoção e aqueles que seriam tratados como coisas, cuja morte é apenas um número, uma fatalidade da qual não há razão alguma para chorar. Agora, chegamos à consagração final desta lógica. A população é apenas o suprimento descartável para que o processo de acumulação e concentração não pare sob hipótese alguma.

É claro que séculos de necropolítica deram ao Estado brasileiro certas habilidades. Ele sabe que um dos segredos do jogo é fazer desaparecer os corpos. Você retira números de circulação, questiona dados, joga mortos por corona vírus em outra rubrica, abre covas em lugares invisíveis. Bolsonaro e seus amigos vindos dos porões da ditadura militar sabem como operar com essa lógica. Ou seja, a velha arte de gerir o desaparecimento que o Estado brasileiro sabe fazer tão bem. De toda forma, there is no alternative. Esse era o preço a pagar para que a economia não parasse, para que os empregos fossem garantidos. Alguém tinha que pagar pelo sacrifício. A única coisa engraçada é que sempre são os mesmos quem pagam. A verdadeira questão é outra, a saber: Quem nunca paga pelo sacrifício enquanto prega o evangelho espúrio do açoite?

Pois vejam que coisa interessante. Na República Suicidária Brasileira não há chance alguma de fazer o sistema financeiro verter seus lucros obscenos em um fundo comum para o pagamento de salários da população confinada, nem de enfim implementar o imposto constitucional sobre grandes fortunas para ter a disposição parte do dinheiro que a elite vampirizou do trabalho compulsivo dos mais pobres. Não, essas possibilidades não existem. There is no alternative: será necessário repetir mais uma vez?

Essa violência é a matriz do capitalismo brasileiro. Quem pagou a ditadura para criar aparatos de crimes contra a humanidade na qual se torturava, estuprava, assassinava fazia desaparecer cadáveres? Não estavam lá dinheiro de Itaú, Bradesco, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Fiesp, ou seja, todo o sistema financeiro e empresarial que hoje tem lucros garantidas pelos mesmos que veem nossas mortes como um problema menor?

Na época do fascismo histórico, o Estado suicidário mobilizava-se através de uma guerra que não podia parar. Ou seja, a guerra fascista não era uma guerra de conquista. Ela era um fim em si mesmo. Como se fosse um “movimento perpétuo, sem objeto nem alvo” cujos impasses só levam a uma aceleração cada vez maior. A ideia nazista de dominação não está ligada ao fortalecimento do Estado, mas a um movimento em movimento constante. Hannah Arendt falará da: “essência dos movimentos totalitários que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia”. Uma guerra ilimitada que significa a mobilização total de todo efetivo social, a militarização absoluta em direção a uma guerra que se torna permanente. Guerra, no entanto, cuja direção não pode ser outra que a destruição pura e simples.

Só que o Estado brasileiro nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada. Seu exército não serviu a outra coisa que se voltar periodicamente contra sua própria população. Esta é a terra da contrarrevolução preventiva, como dizia Florestan Fernandes. A pátria da guerra civil sem fim, dos genocídios sem nome, dos massacres sem documentos, dos processos de acumulação de capital feitos através de bala e medo contra quem se mover. Tudo isso aplaudido por um terço da população, por seus avós, seus pais, por aqueles cujos circuitos de afetos estão presos nesse desejo inconfesso do sacrifício dos outros e de si há gerações. Pobres dos que ainda acreditam que é possível dialogar com quem estaria nesse momento a aplaudir agentes da SS.

Pois alternativas existem, mas se elas forem implementadas serão outros afetos que circularão, fortalecendo aqueles que recusam tal lógica fascista, permitindo enfim que eles imaginem outro corpo social e político. Tais alternativas passam pela consolidação da solidariedade genérica que nos faz nos sentir em um sistema de mútua dependência e apoio, no qual minha vida depende da vida daqueles que sequer fazem parte do “meu grupo”, que estão no “meu lugar”, que tem as “minhas propriedades”. Esta solidariedade que se constrói nos momentos mais dramáticos lembra aos sujeitos que eles participam de um destino comum e devem se sustentar coletivamente. Algo muito diferente do: “se eu me infectar, é problema meu”. Mentira atroz, pois será, na verdade, problema do sistema coletivo de saúde, que não poderá atender outros porque precisa cuidar da irresponsabilidade de um dos membros da sociedade. Mas se a solidariedade aparece como afeto central, é a farsa neoliberal que cai, esta mesma farsa que deve repetir, como dizia Thatcher: “não há essa coisa de sociedade, há apenas indivíduos e famílias”. Só que o contágio, Margareth, o contágio é o fenômeno mais democrático e igualitário que conhecemos. Ele nos lembra, ao contrário, que não há essa coisa de indivíduo e família, há a sociedade que luta coletivamente contra a morte de todos e sente coletivamente quando um dos seus se julga viver por conta própria.

Como disse anteriormente, alternativas existem. Elas passam por suspender o pagamento da dívida pública, por taxar enfim os ricos e fornecer aos mais pobres a possibilidade de cuidar de si e dos seus, sem se preocupar em voltar vivo de um ambiente de trabalho que será foco de disseminação, que será a roleta russa da morte. Se alguém soubesse realmente fazer conta nas hostes do fascismo, ele lembraria o que acontece com um dos únicos países do mundo que recusa seguir as recomendações de combate à pandemia: ele será objeto de um cordão sanitário global, de um isolamento como foco não controlado de proliferação de uma doença da qual os outros países não querem nunca mais partilhar. Ser objeto de um cordão sanitário global deve ser realmente algo muito bom para a economia nacional.

Enquanto isto nós lutamos com todas as forças para encontrar algo que nos faça acreditar que a situação não é assim tão ruim, que tudo se trata de derrapadas e destemperos de um insano. Não, não há insanos nessa história. Esse governo é a realização necessária de nossa história de sangue, de silêncio, de esquecimento. História de corpos invisíveis e de capital sem limite. Não há insanos. Ao contrário, a lógica é muito clara e implacável. Isso só ocorre porque quando é necessário radicalizar sempre tem alguém nesse país a dizer que essa não é ainda a hora. Diante da implementação de um Estado suicidário só nos restaria uma greve geral por tempo indeterminado, uma recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia. Só nos restaria queimar os estabelecimentos dos “empresários” que cantam a indiferença de nossas mortes. Só nos restaria fazer a economia parar de vez utilizando todas as formas de contra-violência popular. Só nos restaria parar de sorrir, porque agora sorrir é consentir. Mas sequer um reles pedido de impeachment é assumido por quem diz fazer oposição. No que seria difícil não lembrar dessas palavras do evangelho: “Se o sal não salga, de que serve então?”. Deve servir só para nos fazer esquecer do gesto violento de recusa que deveria estar lá quando tentam nos empurrar nossa própria carne servida a frio.”

*

Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, professor convidado das universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch. É um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisas em Teoria social, Filosofia e psicanálise (Latesfip/USP)

Download do texto: BEM-VINDO AO ESTADO SUICIDÁRIO.pdf


LA PROSPERIDAD DE LA MUERTE

por Christopher Britt Arredondo

Este ensayo de Vladimir Safatle, “Bem-Vindo ao Estado Suicidario”, pone de relieve el nihilismo inherente a nuestra civilización moderna y el momento terminal al que nos ha encaminado. Su análisis histórico de las políticas de muerte del actual estado brasileño demuestra que la ontología de la soberanía moderna reside en el poder de la muerte.  A su vez, aclara el sentido en que el origen de esta política de la muerte lo constituye el proceso destructivo de conquista y colonización de las Américas. Y por último revela que esta lógica de dominación se radicaliza, a partir del modelo Nazi al fin de la Segunda Guerra Mundial, en un nihilismo suicida.  “Si se pierde la guerra, que perezca la nación.”

Esta lógica perversa de la interiorización de la muerte no es, ni mucho menos, una expresión exclusiva del odio que pueden sentir Bolsonaro y sus secuaces hacia las masas esclavizadas por el neoliberalismo en Brasil.  Más bien se trata de la misma actitud que viene manteniendo el presidente Trump con respecto a las mismas masas que, en los Estados Unidos de América, lo eligieron como presidente. “WE CANNOT LET THE CURE BE WORSE THAN THE PROBLEM ITSELF”.  Así reza uno de sus “tweets” más espantosos de las últimas semanas en respuesta a la crisis generada por el coronavirus.  Un virus que amenaza con poner o quitar rey.

Trump y sus seguidores sostienen que, si bien la muerte en masa no es ideal, es mejor que permitir que la economía estadounidense se estanque.  Algunos, como el vicegobernador de Texas, Dan Patrick, son explícitos e instan a los ancianos a arriesgar sus vidas para que sus nietos puedan disfrutar de los frutos del capitalismo estadounidense. “Si ese es el precio que hay que pagar, estoy de acuerdo”, ha dicho Patrick. Obviamente, Patrick está siguiendo el ejemplo de Trump, quien, aunque no lo haya dicho de manera tan abierta, ha sido bastante claro. Puestos a elegir entre el dinero y la vida, Trump opta por el dinero.

Es bastante común atribuir la absoluta falta de empatía que siente Trump por los demás seres humanos a su estado congénito de narcisismo.  Pero su narcisismo no es suyo única y exclusivamente.  Viene siendo la seña de identidad de los billonarios norteamericanos desde la llamada “Época Dorada” de los Rockefeller, los Carnegie, y J.P. Morgans de comienzos del siglo XX hasta los promotores de la política económica neoliberal del “Shock Doctrine” de nuestra era de capitalismo globalizado.  Pero los capitalistas no son los únicos que dan rienda suelta a su odio por la vida humana.  Así como los campos de concentración y muerte del fascismo del siglo pasado fueron correspondidos por los pogromos soviéticos, el anti-humanismo de los capitalistas es correspondido hoy día por el anti-humanismo de quienes profesan las teorías críticas de la izquierda supuestamente más subversiva: desde el post-estructuralismo de Foucault hasta los Cultural Studies de Hall.

Este anti-humanismo de índole izquierdista tiene sus orígenes en los límites y fracasos de las revoluciones de 1968.  Frente a estos límites, la izquierda en Europa y los Estados Unidos de América opta por estrategias de resistencia.  Su frustración y resentimiento es patente.  Se manifiesta, por ejemplo, en las tácticas de resistencia con que de Certeau pretende que personas que han perdido su soberanía recuperen una pizca de independencia.  En vez de cruzar una calle de Manhattan cuando el semáforo está en verde, esperar a que se ponga en rojo, dar una pirueta, y cruzar la calle caminando hacia atrás.  ¡Todo un happening!  Este resentimiento se exhibe también, y de manera aún más patética, en las propuestas que han hecho Harney y Moten para “ocupar” la universidad.  Con un cinismo estudiado, por no decir nada de su desmesurada misantropía, se apropian de la figura verdaderamente trágica del refugiado para instar a quienes se consideren “intelectuales subversivos” que ocupen un espacio “dentro-pero-no-de” la universidad y que, a base de este “campo de intelectuales refugiados”, resistan la administración neoliberal de la universidad corporativa.

Vivimos, o más bien existimos, en un mundo y un momento en que hay más refugiados y desplazados que en cualquier momento desde finales de la Segunda Guerra Mundial.  La UNHCR calcula que, en el año 2020, el número de personas que han sido desplazadas llega a unos 70,8 millones.  Este desplazamiento forzado es, sin lugar a dudas, uno de los resultados más nefastos de las políticas de muerte puestas en práctica por gobiernos que buscan servir los intereses, no de todos sus ciudadanos, sino de la minoría económicamente más pudiente.  De manera particular, este desplazamiento masivo corresponde a la política de guerra total que viene persiguiendo el Pentágono desde el fin de la Guerra Fría.  De hecho, los países que han generado mas desplazados internos y refugiados externos son, precisamente, aquellos donde las fuerzas armadas de los Estados Unidos han intervenido: Colombia, Iraq, Afganistán, y Siria.

A pesar de la responsabilidad que tiene el gobierno de los Estados Unidos por esta crisis humanitaria, la política del presidente Trump ha sido tajantemente irresponsable.  Trump ganó la presidencia alardeando su determinación a excluir a estas masas violentamente desplazadas de la prosperidad creada por la guerra global—una prosperidad que, según él, es ante todo patrimonio de los Americanos: tal es significado verdadero de su lema “America First”.  Y sin más, les cerró el paso a los inmigrantes, construyendo un muro en la frontera de los Estados Unidos con México y declarando por medio de decretos anti-constitucionales que las personas de origen árabe o de países mayoritariamente musulmanes no estaban bien venidas y serían retornadas a sus países de origen.  Y sin más ni más, esta política de muerte para con el resto del mundo se comenzó a interiorizar.  A diario, se presenciaban masacres de judíos, de musulmanes, de afro-americanos, de mejicanos ad nauseam.  Y ahora, con la crisis del coronavirus, esta criminalización de los ciudadanos se ha generalizando.  ¡Que mueran los viejos, los tullidos, los incapacitados!  Sólo así se hará grande una vez más la nación de los Estados Unidos.  He aquí la lógica perversa, profundamente nihilista, genocida y suicida que sirve de motivo a las políticas de muerte del gobierno imperial de los Estados Unidos: una democracia y una república que dejaron de serlo casi desde sus comienzos: no olvidemos ni ignoremos que los Founding Fathers, desde Franklin hasta Hamilton y Jefferson, soñaron con convertir a su nación en un tal llamado “imperio de libertad”.

Frente a semejante tiranía, hay personas en todo el mundo que se han unido para protestar en contra de la injusticia.  Henos allí en el año 2011: las manifestaciones del “Occupy Movement” de Wall Street, los llamados “indignados” en España, y las manifestaciones anti-dictatoriales de la “Primavera Árabe”.  Y no olvidemos tampoco las protestas del 2019 y 2020 en Caracas y Hong Kong.  Por medio de estas protestas masivas, la gente ha querido refutar la hegemonía de los gobiernos autoritarios y democráticos que sirven los intereses de las grandes corporaciones.  Han querido denunciar cómo el sistema financiero global controla el mundo de tal manera que beneficia desproporcionadamente a una minoría, socava la democracia, y causa la inestabilidad económica, social, y cultural.  Pero este movimiento de índole pasivo, inspirado en la justicia global, y defensora de la democracia participativa, aunque nos pueda servir de inspiración, tampoco ha generado cambios profundos y duraderos.  Bien puede ser que ha concienciado a muchas personas con respecto a la falta de equidad en la economía global, pero no ha sabido convencer a muchas de las personas excluidas del bienestar generado por el mercado global a no identificarse con los Trumps y Bolsonaros, a quienes estas masas idiotizadas siguen como si sus políticas estatales de muerte suicida no les incluyeran a ellos también.

Download do texto: LA PROSPERIDAD DE LA MUERTE.pdf


COM JEITO VAI?

por Imaculada Kangussu

É bom começar reiterando a potência do texto do Vladimir, escrito em modo “J´accuse”, em tempo de pandemia, e provocador dos presentes comentários. Destaco alguns pontos:

– Saltam aos olhos a precisão e clareza no diagnóstico, há muito necessárias: ele diz com (quase) todas as letras que o sistema capitalista neoliberal em curso alimenta-se dos corpos vivos, de “nossa própria carne”, tratada como “suprimento descartável para que o processo de acumulação e concentração não pare sob hipótese alguma.”  

– São nomeados os protagonistas predatórios: destaco os bancos Bradesco e Itaú, aos quais se juntou o espanhol Santander – e que hoje, no momento em que escrevo, por causa da pandemia, receberam do governo brasileiro o auxílio de 1,2 trilhões, sim, trilhões, de reais. 

– É apresentada uma alternativa baseada na esfera dos afetos, na “consolidação da solidariedade”, e propostas concretas: “greve geral por tempo indeterminado”, “recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia”, “queimar os estabelecimentos dos ´empresários` que cantam a indiferença de nossas mortes”, “fazer a economia parar de vez utilizando todas as formas de contra-violência popular.”

Na sequência, passo a passo, vou atravessar o texto com outros caminhos, às vezes ampliando as propostas, às vezes em direção distinta destas (parece-me supérfluo e desnecessário dizer que jogamos no mesmo time, tocamos na mesma banda).

A denúncia inicial do texto, de que fazemos “parte de um experimento”, tem alcance ainda mais amplo quando se considera a gênese do poder nojento em curso. Em The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism (A doutrina do choque. A ascensão do capitalismo do desastre), a jornalista Naomi Klein revela como a necessidade da terra arrasada, “livre” de qualquer limite colocado por um estado de bem-estar social, foi considerada como condição para que a mão invisível do mercado pudesse ditar as regras. Proposta pelo economista Milton Friedman, acompanhado dos então chamados chicago´s boys, a doutrina do choque foi posta em prática no cone sul da América Latina (Chile, Brasil e Argentina) onde, através da Operação Condor, regimes democráticos foram arrasados e ditaduras militares impostas, fazendo tabula rasa – essa é uma expressão chave no experimento – de toda história anterior. Pois bem, talvez algum dia seja descrita a trama da experiência em curso, agora por via jurídica. Pela mesma justiça criadora de leis protecionistas ao sistema bancário e ao capital especulativo. Levada a cabo com orquestração de Harvard, o primeiro passo espetacular foi destituir a presidente Dilma Rousseff e construir a eleição de um ex-militar – dispensado do exército aos 33 anos, por apresentar problemas mentais. […]

Download do texto completo: COM JEITO VAI?.pdf


EL PODER Y LA MUERTE

por Eduardo Subirats

“Esse experimento do qual você faz parte, do qual te colocaram à força tem nome. Trata-se da implementação de um “Estado suicidário”… Um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo. Agora, é sua face a mais cruel, sua fase terminal” – escribe Vladimir Safatle. Creo que estas líneas ponen de manifiesto la conciencia final de los sucesivos proyectos civilizatorios de Brasil a lo largo de los últimos cien años: el Brasil sensual, místico y mágico de Sergio Buarque de Holanda, el Brasil creador, erótico y soñador de la Cobra Grande de Raul Bopp, el Brasil innovador de la Antropofagia de Oswald de Andrade, la conciencia crítica de Brasil representada por el trickster Macunaíma de Mário de Andrade… pero también la conciencia final de los Brasiles política, financiera y militarmente reales de la izquierda comunista y socialista de la Segunda Guerra Mundial, de las alianzas fascistas con los ejes militares internacionales de la Alemania nazi, los Estados Unidos de América y la Comunidad Europea, el Brasil de las sucesivas dictaduras de la Guerra fría, y el Brasil neoliberal y reformista de Fernando Henrique Cardoso o de Lula. Personalmente me identifico completamente con su gesto radicalmente negativo. Siempre me ha parecido el gran ausente en la vida intelectual brasileira de las últimas décadas.

Pero su argumento vaticina algo nuevo: “Engana-se quem acredita que isto é apenas a já tradicional figura do necroestado nacional… O fim da Nova República terminará em um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de rituais periódicos de destruição de corpos.” El necroestado y el necro-imperialismo no es solo el final, sino también el principio de la expansión universal de la civilización de Occidente, cuyos representantes contemporáneos son los banqueros de Wall Street. Piensen en el gran símbolo que preside el eje monumental que va del mausoleo de Abraham Lincoln a la gran cúpula del Capitolio: el monumental obelisco. El obelisco no es un símbolo cósmico, como las pirámides y templos solares que presiden las capitales antiguas de Oriente, desde Cuzco y Tenbochtitlan hasta Karnak y Beijing.  Es la unidad del poder y la muerte. Axis mundi de los imperialismos de occidente.

Los grandes sistemas de la filosofía moderna, de Hobbes a Hegel, formularon claramente que la guerra, la muerte y la nada es el principio de dominación de la civilizaicon industrial y el estado moderno. Hobbes los describió sumariamente como una jaula de bestias feroces despedazándose las unas a las otras bajo el mantra del poder patriarcal: homo hominis lupus est. La filosofía del Espíritu de Hegel arranca de la muerte como su “maravilloso principio”. No tengo que subrayar que este principio es el símbolo de la cruz; el símbolo nihilista de la destrucción y la muerte como redención de la culpa y el ser. […]

Download do texto completo: EL PODER Y LA MUERTE.pdf


“LAISSEZ-FAIRE” A LA PESTE

por Pablo Alzate

Don Benja es un señor muy mayor que vive solitario por temporadas en su pequeña cabaña de barro y guadua de un resguardo indígena clavado entre las montañas. Apenas cursó pocos años de primaria, pero es un hombre sabio, dueño del conocimiento que le legaron la vida y sus luchas continuas. Es, sobre todo, un hombre comprometido, que sigue luchando por los derechos de su pueblo, que sigue enseñando a luchar a los jóvenes. Lo recuerdo en estos días en que los ancianos se han convertido en las principales víctimas del virus que se propaga con la velocidad frenética de las ofertas comerciales y los vuelos transplanetarios, como si los ancianos pobres de mi país no fueran ya las primeras víctimas de otra epidemia de abandono, miseria e inexistencia total de servicios sociales, el legado de tres décadas de neoliberalismo furioso.

Y entonces repaso algunos de los titulares de los últimos días: “Israel anuncia que sacará a ancianos de hospitales para dejar sitio a infectados con COVID” anota La Vanguardia. “Italia: confirman las declaraciones de un médico sobre la masacre de ancianos” dice El Clarín. “El horror que se vive en algunas residencias de ancianos de España por la crisis del COVID-19” titula luego la BBC. ¿Merece existir un orden social que sacrifica y desecha a los más viejos, con todo lo que significan, con todo lo que representan?

Hay un hilo conductor entre la política (neo) liberal, el control demográfico y la eugenesia social, un discurso que ha experimentado un repentino y epidémico brote casi al mismo tiempo que el COVID-19. Ese hilo común es el “dejar hacer, dejar pasar”, la fórmula elegida por los poderes mundiales hace ya cuatro décadas para superar la crisis de acumulación del capital y, de paso, la debacle social que la acompaña, especialmente en el tercer mundo. Aunque la fórmula se aplica principalmente a la no intervención del Estado en la economía y proviene del siglo XVIII, su influencia se extiende hasta nuestros días y se expresa en todas las esferas de la vida social.

Robert Malthus fue un influyente pensador inglés de principios del siglo XIX. En su libro “Ensayo sobre el principio de la población”, Malthus esbozó métodos brutales y muy crueles de control demográfico, en un lenguaje desparpajado que parece evocar al de políticos como Donald Trump o Jair Bolsonaro. Aunque era clérigo, no lo motivaba la preocupación por el prójimo, sino los intereses de su propia clase que sentía amenazada su riqueza ante el explosivo crecimiento de los trabajadores. Explícitamente planteaba:

El hambre parece ser el último y el más terrible recurso de la naturaleza. La fuerza de crecimiento de la población es tan superior a la capacidad de la tierra de producir el alimento que necesita el hombre para subsistir, que la muerte prematura en una u otra forma debe necesariamente visitar a la raza humana. Los vicios humanos son agentes activos y eficaces de despoblación. Son la vanguardia del gran ejército de destrucción; y muchas veces ellos solos terminan esta horrible tarea. Pero si fracasan en su labor exterminadora, son las enfermedades, las epidemias y la pestilencia quienes avanzan en terrorífica formación segando miles y aún decenas de miles de vidas humanas. Si el éxito no es aún completo, queda todavía en la retaguardia como reserva el hambre: ese gigante ineludible que de un solo golpe nivela la población con la capacidad alimenticia del mundo” (1). […]

Download do texto completo: “LAISSEZ-FAIRE” A LA PESTE.pdf


O ESTADO SUICIDÁRIO E A SOCIEDADE AUTOFÁGICA

por Rafael Rodrigo Mueller

Anselm Jappe, em seu último livro intitulado “Sociedade Autofágica”, concebe toda a sua reflexão crítica sobre o capitalismo contemporâneo tendo por base o mito de Erisícton que, por sua soberba e desobediência diante da deusa Deméter, foi condenado a uma fome impossível de saciar, sucumbindo a uma contradição inerente a sua própria constituição: quanto mais comia, mais fome tinha. Conforme Jappe, “Trata-se de um dos mitos tipicamente gregos que evocam a húbris – a desmesura resultante da cegueira e do orgulho ímpio -, a qual acaba por provocar a nêmesis, o castigo divino a que se viram sujeitos, entre outros”. Para o autor, a representação do mito de Erisícton expressa a forma e dinâmica interna de nossa sociedade: sucumbir de fome em meio a abundância a ponto de se autoconsumir. O autoconsumo, nesse caso, tem relação com uma das características centrais de Erisícton que seria o narcisismo: o sujeito que só reflete a si próprio, impossibilitado de estabelecer relações verdadeiras com outros sujeitos, com as instâncias simbólicas e com os princípios normativos reguladores da vida humana e, como desdobramento natural, desmesura e narcisismo estabelecem a dinâmica autodestrutiva social. Nesse sentido, o Estado suicidário e a sociedade autofágica se desenvolvem em plena sintonia no Brasil pois quando Safatle aponta que historicamente o “Estado brasileiro nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada”, o exército brasileiro atua de forma autodestrutiva junto à população nacional tal qual o sintoma social que o Corona Vírus institui globalmente, qual seja, reprimir toda e qualquer forma de coletividade, de organização coletiva. A pandemia instaurada pelo vírus muito mais do que promover uma outra forma de ver e interpretar o mundo, amplia e extrapola a visão sobre nossa própria forma de ser: normalizada pela lógica do “sujeito automático” que só permite nos relacionarmos a partir de relações sociais estranhadas onde o humano se torna apêndice da coisa. Mais do que o anseio de um “outro mundo possível”, o que se deseja o mais rápido possível é a restituição da normalidade da “vida não-vivida”, das “multidões solitárias”, do “tempo espetacular pseudo-cíclico”, ou seja, a restituição da sociedade espetacular nos termos em que a concebe Guy Debord. O Estado suicidário não só funciona em plena sintonia a sociedade autofágica mas é parte da dinâmica espetacular que pretere o vivo em função do não-vivo (o zumbi), acolhe a positividade do trabalho produtivo abstrato ao invés da sua abolição radical, consome a pobreza material em prol da riqueza fantasmagórica (o reino da financeirização); tudo isso aos olhos da população mundial atônita e perplexa diante do vazio espetacular da existência. Em seu livro de 1930 intitulado “Os empregados”, Siegfried Kracauer expressa perfeitamente tal constatação: “Quando pergunto a um empregado por que motivo as massas são tratadas como massas, ele responde-me, com amargura: Porque as pessoas viram a sua vida tão devastada que já não sabem o que fazer com ela”. O Estado suicidário acaba, nesses termos, se tornando o “asilo para os sem-abrigo”, contradição natural que abarca todos aqueles que não se enxergam parte de sua própria condição: desde o trabalhador assalariado que não se nomeia sob essa denominação mas como outra natureza, o empregado; assim como o presidente da Confederação Nacional das Indústrias, “contagiado” e isolado pelo Corona Vírus, e para as caravanas que foram às ruas recentemente, em SUVs com os vidros fechados, movidas pelo mesmo slogan fascista  “O Brasil não pode parar”. Ambos partes permanentes da dinâmica narcísica e autodestrutiva da sociedade espetacular que conclama a todos para “não pararem” diante do abismo mas continuarem no caminho da moral cor-de-rosa do capitalismo contemporâneo que exige dos seres humanos nem muita alegria e nem uma profunda tristeza, nem muito desespero mas nem muita esperança. Ou seja, a cor oficial do Estado suicidário é o cor-de-rosa.

Download do texto: O ESTADO SUICIDÁRIO E A SOCIEDADE AUTOFÁGICA.pdf


O ESTADO SUICIDÁRIO E SUA POLÍTICA ZUMBI

por André Cechinel

O texto de Vladimir Safatle sobre o Estado suicidário corresponde, a meu ver, a uma das leituras mais potentes realizadas no Brasil sobre o nosso momento histórico e sobre como ele foi potencializado pelo novo Corona vírus. Seu principal mérito é o de sinalizar o impulso niilista e auto-aniquilador do fascismo (brasileiro) hoje. Como lemos no ensaio de Leca Kangusso, bastam algumas linhas do texto de Safatle para saber que partilhamos das mesmas premissas, ou melhor, “jogamos no mesmo time”.  Não consigo, contudo, ver a “intencionalidade dos agentes” de que Safatle fala. Em outras palavras, dificilmente o Estado suicidário assumirá o caráter de um “experimento” autoconsciente, como o autor indica nas linhas iniciais do seu texto; na verdade, a sua conduta assemelha-se muito mais à de um culto religioso sem transcendência, a uma contemplação passiva daquela mesma estrutura que o corrói internamente, assassina e faz morrer. O funcionamento do Estado suicidário seria semelhante ao comportamento daquilo que chamamos de “zumbi”, um “Estado zumbi”, ou seja, um ente já morto, mas que se recusa a morrer de vez e que contempla, sem introspecção alguma, o seu estado avançado de putrefação. O niilismo do Estado brasileiro diz respeito à inação, à incapacidade de reconhecer-se morto, à força de contágio dessa mesma morte, que nos embrutece, imobiliza e mata a todos – tudo isso numa atitude contemplativa e religiosa diante de um Deus mercado intocável, sagrado, pai de todos os filhos que ele inevitavelmente abandona. A crença na possibilidade de conferir vida ao “Estado zumbi” nos faz votar na próxima eleição, mais uma vez. Há uma imagem dos zumbis, num filme recente, em que, quando os fogos de artifício explodem nos céus, todos eles voltam o seu olhar imediatamente, numa contemplação automática, passiva, sem transcendência, afetada pelo poder fascinante de um brilho que nada significa, mas que é intenso. Os fogos de artifício correspondem a esse mercado e seus sucedâneos midiáticos hoje – twitter, facebook, instagram e demais agentes de acumulação de data. Os zumbis, evidentemente, somos nós em meio a esse Estado que mimetizamos e acreditamos vivo, mas cujo niilismo se revela na ausência de qualquer plano que não seja o de preservar o imperativo econômico.

Um segundo ponto. Embora condene Bolsonaro, o fascismo brasileiro contemporâneo e discorra sobre um Estado suicidário, corrupto, excludente, insano – embora proponha saídas radicais como “uma greve geral por tempo indeterminado, uma recusa absoluta em trabalhar até que esse governo caia” –, o texto atravessa também, ao fim, uma ideia de impeachment que eu me vejo muito longe de compreender. O argumento é mencionado en passant, mas constitui um desejo que domina a fala de inúmeros intelectuais brasileiros – o próprio Safatle tem se dedicado a debater o impeachment de Bolsonaro em diferentes ocasiões. A meu ver, sugerir o impeachment é quase uma contradição performativa, uma vez que recorre à internalidade do mesmo “Estado suicidário” como mecanismo para o enfrentamento das suas condutas mais íntimas e protocolares. O impeachment não é uma resolução a posteriori para um Estado que se tornou disfuncional, mas sim uma das formas falsamente reparadoras do seu próprio funcionamento interno, um modo de gerir e apaziguar crises permanentes. Como seria um impeachment no Brasil hoje? O pedido seria aceito por… Rodrigo Maia? Aprovado pelos… deputados do Congresso Nacional? Em nome de quem? Da pátria? Da família? Da Igreja? Da avó doente com Corona vírus? Quem assumiria depois? A fim de quê? De restabelecer a normalidade? Eu não sei qual é a saída para a nossa atual crise. Mas penso que, além de evidenciar mais uma vez o que parece claro – ou seja, a conduta ao mesmo tempo homicida e suicida do Estado suicidário brasileiro hoje –, uma tarefa intelectual urgente para o nosso momento histórico, tarefa ainda aberta, seria refletir sobre em que termos se daria a saída de um Estado que, como diz Safatle, “nunca precisou de uma guerra porque ele sempre foi a gestão de uma guerra civil não declarada”.

Download do texto: O ESTADO SUICIDÁRIO E SUA POLÍTICA ZUMBI.pdf


Site no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: